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CAPÍTULO 1 - PREPARAÇÃO

Foram 8 meses de preparação. Desde a vontade de fazer uma viagem para conhecer os Andes até sua execução. Logo no início decidi que não queria uma viagem turística, mas sim, conhecer as pessoas, seus modos, seus hábitos. E também tinha que ser de moto.

Sonho é assim mesmo : a gente tem que realizar de maneira integral. Sabia que não seria fácil. Muitas coisas tinham que ser pensadas, planejadas, estudadas, experimentadas. Decidi logo que iria para o Chile, afinal para se chegar lá têm-se que atravessar os Andes.

Lembro-me que tinha uma moto de 200cc à época e tornou-se imprescindível sua troca por um modelo de maior potência e robustez. Conhecia a Falcon através de alguns colegas e fiquei tentado a comprá-la. Como a diferença de preço seria grande, teria que usar minha moto como lance num consórcio para ter condições de pegar a que eu queria.

À época, ao conversar com um colega de serviço (experiente em motos), me perguntou se já havia pilotado uma Tennerè, da Yamaha. Disse que não, até porque meu único contato com motos da Yamaha tinha sido com uma DT180. Esse colega então sorriu discretamente e me falou : “Antes de decidir, faça-me um favor : vá a uma concessionária Yamaha e peça para dar uma volta numa XT600.”

Achei um pouco estranho, mas a recomendação era de alguém que conhecia bem de motos. Procurei informações sobre concessionárias e entrei em contato com o pessoal da Eldorado Motos, de BH. Conversei com o "Chapinha" da Eldorado Motos, explicando-lhe sobre o projeto, o que foi muito receptivo e confirmou : a moto tinha que ser mesmo a XT600. Ainda tinha dúvidas e ao expressá-las, Chapinha me convidou a rodar alguns dias com uma moto da casa, para conhecê-la melhor. Pra falar a verdade, quando montei a primeira vez, assustei-me com seu tamanho e poderio do motor.

Lembro-me que pouco antes de sair da Eldorado Motos, ele me passou algumas instruções básicas realçando : "cuidado com a arrancada, não é necessário acelerar muito para sair". Acho que essas dicas e tantas outras foram importantes para a conclusão do projeto.

Fiquei, no mínimo, impressionado. A moto era potente, quando se precisava de potência, e suave e dócil quando se precisava de agilidade no trânsito. Ao fazer viagens próximas, percebi a estabilidade e tranquilidade ao guiá-la na estrada. O motor parecia ter mais potência do que aparentava e suas retomadas eram consistentes e rápidas.

Já estava decidido : teria que ser uma XT600. Era mais cara, mas fiquei avaliando a importância de se ter confiabilidade no equipamento que seria profundamente exigido. Comprei uma 2002, azul e rodei durante um bom tempo no trânsito de Belo Horizonte (trabalho, faculdade, passeio). Tive que me acostumar com a eficiência do seu freio, principalmente o traseiro. Mas estava indo bem.

Voltando à preparação da viagem, pesquisei mapas das estradas do Cone Sul tentando criar opções de roteiros e calculando as distâncias, consumo de combustível, etc. À medida que ia ampliando minha pesquisa, mais fatores iam aparecendo e aumentando a complexidade da empreitada. Durante os dois primeiros meses, trabalhei na escolha da moto. Nos próximos dois meses, tentei construir roteiros possíveis de serem feitos. No final ficou o seguinte :

- Saída de BH : 03/01/2004 - Chegada em Foz do Iguaçú : 04/01/2004 - Saída de Foz do Iguaçú : 07/01/2004 - Chegada em Corrientes - AR : 07/01/2004 - Saída de Corrientes - AR : 08/01/2004 - Chegada em Salta - AR : 08/01/2004 - Saída de Salta - AR : 10/01/2004 - Chegada em San Pedro de Atacama - Chile : 11/01/2004 - Ficar em San Pedro de Atacama - Chile - até 19/01/2004 - Iniciar retorno de San Pedro de Atacama - Chile : 20/01/2004 Obs.: Roteiro de retorno seria estabelecido no Chile.

- Total de tempo gasto na viagem : 3 semanas.

Havia complicadores : minhas férias não estavam totalmente definidas e, além disso, tinha que arrumar um companheiro de viagem. Do local onde trabalhava, nenhum colega tinha esse gosto por aventuras. Tive um pressentimento que iria mesmo ter que fazer a viagem sozinho, o que aumentava a responsabilidade e a preparação.

Como já estava decidido passar pela Cordilheira dos Andes e para pilotar a moto por longos trechos de asfalto e, talvez, por estradas de chão, resolvi me preparar fisicamente. A necessidade foi percebida com 5 meses de antecedência (logo após comprar a XT600), mas somente com três meses antes do início da viagem tive condições de implementá-la. Inicialmente, trabalhei com um preparador físico ("personal trainner") que, diante do projeto, desenvolveu uma bateria de exercícios visando alongamentos e resistência física. O prazo era curto e o preparador físico foi aumentando a carga física, além de recomendações com alimentação. Além disso, desenvolvemos vários exercícios que usavam a estrutura da XT600 como apoio, pois tudo indicava que eu iria mesmo sozinho. Quando estávamos a um mês do início da viagem, ele me enviou a uma academia de confiança e, além do que já fazia, trabalhei muito a capacidade aeróbica. Nesse ponto, meu controle sobre a XT melhorou muito, tanto a nível de trânsito urbano como em estrada.

Como não consegui agendar minhas férias com dois colegas que iriam fazer uma viagem parecida, decidi me preparar para o pior : iria sozinho, ou melhor, eu e a XT600. Para tanto, refiz minha pasta de ferramenta, além de algumas peças sobreçalentes (pastilhas de freio, lâmpadas do farol e freio). Além disso, conversei muito com o mecânico da Eldorado Motos, para adquirir um pouco de experiência em mecânica básica da moto. Também lí todo o manual do condutor e o considerei bastante completo.

Quando chegou dezembro/2003, Belo Horizonte era só chuva, sendo um fator complicador. Outro fato também desempenhou papel complicador : sofri um acidente com a moto próximo a BH, onde um veículo puxando uma carretinha cruzou minha mão de direção. Bati forte na carretinha e, por estar com equipamento de segurança pessoal completo (botas, luvas e casaco de couro, além de capacete de fibra de carbono) não sofri nenhum tipo de machucado. Mas o problema foi a moto : quebrou a suspensão dianteira. O conserto da moto estava demorando muito por causa do seguro do veículo culpado e fiquei muito preocupado. Mais uma vez o pessoal da Eldorado Motos me ajudou : ficariam com minha moto e conseguiriam uma moto nova (2003) para mim, somente sendo necessário pagar a diferença de preço. Foi um alívio.

Quando peguei a moto nova, estava a alguns dias da partida prevista. Haveria atrasos até conseguir emplacar, fazer alteração no seguro, etc. Mas era um alívio estar com um equipamento novo. Somente teria que ficar de olho nas revisões iniciais que, pelos meus cálculos, ocorreriam em Foz do Iguaçú.

De preparação foi isso : muita pesquisa na Internet sobre os mais diversos assuntos, tais como:

- Para o corpo: - Alimentação; - Exercícios de alongamento (Cuidados especiais com a postura e coluna); - Bloqueadores solar, inclusive para lábios (principalmente com filtro para irradiação UV); - Cuidados com roupas, principalmente os de uso contínuo (calça e casaco de cordura, cinta abdominal, cotoveleiras e joelheiras, luvas, capús - todos com opções para frio e calor); - "CamelBack" instalado dentro do casaco de cordura, com capacidade para 2L; - Bota de couro, cano alto, previamente amaciada; - Capacete de fibra de carbono e óculos com filtro UV (mais uma lente reserva); - Estudos dos efeitos das variações de temperatura e altitude sobre o corpo.

- Para a moto: - Conhecimento de mecânica geral; - Ferramentas selecionadas para uso na XT600 (até um calibrador de pneu e abraçadeiras de plástico foram colocados na lista); - Peças reservas (Pastilhas de freio, lâmpadas reservas, câmara de ar); - Reparo instantâneo para pneu furado; - Lista das concessionárias Yamaha em todo trajeto (Brasil, Argentina e Chile); - Lubrificante para corrente, coroa e pinhão (em grande quantidade), fios, colas (durepoxi, superbonder), fita isolante, etc.; - Contato prévio com a Concessionária Yamaha em Foz do Iguaçú, informando a chegada e necessidade de revisão inicial (já que a moto era nova); - Instalação de um bagageiro robusto; - Projeto e construção de um suporte para transporte de carga, instalado em conjunto com o bagageiro.

- Bagagens (obs.: como iria sozinho, muitos ítens foram levados a mais): - Roupas para frio e calor; - Material completo para camping (se fosse necessário); - Lona tipo "terreiro" para eventualidades; - 12m de corda de nylon para reboque; - Mochila tipo cargueiro 85L; - Kit ampliado de materiais de primeiros-socorros (obs.: tive que conversar com um profissional médico para ampliá-lo e aprender a usá-lo corretamente); - Bolsas laterais para dois galões de plástico para combustível (somente utilizados na travessia da Cordilheira dos Andes); - Material fotográfico (foram quase 3 quilos).

Com o atraso, a saída foi reprogramada para dia 10/01/2004. Mesmo assim, dois dias antes resolvi colocar toda a bagagem na moto, vestir a roupa completa e fazer uns testes tanto na cidade como na rodovia. Foi importante, pois reajustei a distribuição do peso da carga na moto e recalibrei a pressão dos pneus para o peso adicional.

A partir desse ponto, os relatos são os da própria viagem, que foram sendo escritos à medida que a viagem ia acontecendo. Tem muita emoção. Espero que gostem.